quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Pagamento antecipado

Um rei decidiu acertar as contas com empregados maus pagadores. Primeiro chamou um que lhe devia 10 mil dólares e cobrou a dívida. Quando o homem o avisou não ter como pagar o débito, ordenou que ele fosse vendido com sua mulher e filhos, além de tudo o que possuía e que a dívida fosse saldada. Desesperado, o homem implorou respeitosamente, ao rei, uma nova chance para ajustar as contas sem ter de pagar tão alto preço.
Acabou mexendo com o coração do seu senhor. Compadecendo-se do empregado, o rei liberou-o da dívida e para voltar totalmente livre à sua residência.
Ao ver-se a salvo da situação desesperadora, o homem, já na rua, encontrou com um dos vários colegas que lhe deviam cerca de 100 dólares cada. Em instantes, o segurou pelo colarinho e o sufocou com uma gravata, ameaçando-o violentamente para que pagasse o que lhe devia. De joelhos, o devedor suplicava uma segunda chance.
O seu algoz, no entanto, manteve as ameaças, veementemente, e o lançou na prisão até que fosse saldada a dívida. Alguns colegas que acompanharam a situação foram tomados de muita tristeza e decidiram comunicar o fato ao rei.
Então, o rei voltou a chamar aquele homem, desta vez classificando-o de mau colega e mau empregado. Lembrou a ele que, como o rei daquele país, havia se sensibilizado com a sua súplica. Mas agora estava indignado porque o empregado não havia agido de igual forma com seu devedor. Não imitara o próprio soberano. A reação do rei foi a de entregar o empregado aos carcereiros, até que a dívida fosse quitada.

Interessante: O rei cobrou a dívida em particular. Mas poupou a família. E mesmo indignado no segundo momento, fez o novo chamado em particular.
O empregado, que tinha acabado de ser perdoado, humilhou o outro em público.

Deus arrazoa conosco em segredo. No íntimo. Não lança nossos erros em público. Não nos faz passar vergonha. Isto é respeito. Amor de um pai, que quer ganhar o filho para sempre.

Era preciso fazer uma leitura dos pensamentos íntimos do rei. Nas entrelinhas. As linhas podem ser nobres e eloquentes, mas ainda assim são pobres e empobrecedoras diante das entrelinhas. As linhas, por si mesmas, contribuem para simplificar o julgamento daquele que insiste em ser simplista. Nega-se a crescer. Enterra voluntariamente as chances de se aproximar do coração de Deus. Especialmente a Deus e a tudo que com Ele se relaciona.

Sacrificamos Deus o tempo todo. “Que nada! Ele é grande, Ele agüenta! Quem não agüenta sou eu”.

As coisas na Bíblia costumam ser escritas também nas entrelinhas. “Perdoa as nossas dívidas, assim como nós perdoamos os nossos devededores”, é uma inserção de súplica feita à oração do Pai Nosso, cantada e rezada por milhões, que traz explícita, no primeiro plano, a certeza de que todos devem ao Rei. E como esse Rei se trata de Deus, a dívida são o pecado e as bênçãos diárias. Mas como é pecado usar tal termo Deus se vale de outra palavra para driblar o preconceito cada vez mais aflorado. E com razão de ser.

Com tantos falsos líderes espirituais rondando, preconceito, às vezes, vira eficiente mecanismo de defesa. O problema é que isso vem tornando impossível abordar diretamente um tema sem correr o risco de passar por cima de preconceitos enraizados e a consequente perda da simpatia das pessoas.

De maneira implícita, está a condicional de que, orar a Deus, o Rei, pedindo um favor, e negar-se a perdoar o outro, alijará a oração de um dos seus principais elementos que é entender que o coração do Rei é de natureza perdoadora.

Estranho, a leitura das entrelinhas revelar um Deus perdoando pecados, se Ele mesmo não faz isso. Se Deus perdoasse pecados, Jesus não precisaria morrer na cruz. Estranho que o Deus criador dos Dez Mandamentos, submeta-se à Sua própria Lei. Mais espantoso ainda descobrir, durante a investigação, que Deus não perdoa pecados, mas perdoa pecadores.

A Bíblia é um livro de natureza espiritual. É como espada de dois gumes que penetra o íntimo do ser. Isto, claro, dependendo da disposição do leitor. Se for lida apenas por um ângulo humano terá efeito meramente secular. Fica escrita na mente. Isso é muito pouco para um livro que não muda, mas transforma. Tem poder para tal. Se é lida com oração dentro de um plano espiritual, ela ficara inscrita na mente.

A diferença? Os conselhos de Deus, apenas lidos como conhecimento secular ou religioso, ficam gravados por fora. Externamente. Deste lado, qualquer coisa o apaga. Qualquer coisa o substitui. O altera, seculariza, relativiza. São como a semente plantada entre rochas. Brota instaneamente, em menos tempo, mas da mesma maneira se esvai. Não tem raízes profundas. Vindo o sol, as crises, logo seca. Qualquer vento de doutrina, logo a transporta de um lado para outro da vida. Faz a gente vagar de um lado a outro em busca da felicidade, a qual parece nunca se concretizar e quanto mais a buscamos mais

se nos afigura inatingível. Não existe felicidade sem Deus.

Quando permitimos os conselhos de Deus atingir o nosso ser espiritual, Ele os inscreve por dentro. De nós. Escrever é por fora. Inscrever é por dentro. Ali, nem as forças do mal têm acesso. Do lado de fora, podem rasgar nossos planos, nossos sonhos interiores. Podem provar que somos fracos e até ineficientes. Mas não há como mudar ou mesmo inserir emendas aos nossos princípios. As convicções mais profundas de que Deus é real funcionam como uma âncora na qual seguramos quando sentimos faltar apoio. Ou somos assaltados pela dúvida. Mesmo que tudo ao redor desminta. Céticos provem o contrário com fatos e argumentos irrefutáveis.

Engraçado, Deus nunca provou que existe. Mas sempre quis que acreditássemos nEle. Que paradoxo prazeroso. Deixa-me livre para escolher ou não acreditar. Deixou tudo a cargo da fé. E funciona, às vezes, de forma inconcebível para a mente finita, humana que temos.

Alguém como o ladrão na cruz, mau, vingativo, cruel


Acreditar que o homem ao seu lado era Deus? E mais, ter fé par pedir a Ele um lugarzinho no Céu, sendo o marginal que era? E logo a um Jesus agonizante? Morrendo na cruz? O ladrão também morria. Mas ainda assim creu que Ele tinha poder para perdoá-lo e salvá-lo. Não da morte física, mas da eterna.
Que fé é essa?
Acreditar no Jesus do milagre da multiplicação dos pães era muito mais fácil. No que ressuscitou a Lázaro ou andou sobre o mar é muito mais coerente com a lógica.

Essa fé começa desde o Gênesis. No lide mais perfeito do universo Deus abriu o Seu livro com a frase: “No princípio, criou Deus os céus e a terra”. Mas, perai, que princípio? Quem é Deus! O que faz. Como faz, por que e para que faz! Nada disso! Deus é Deus. Ele por si só existe. Nós existimos por causa dEle e se não fosse Ele já teríamos desaparecido da face da Terra. O fato de você crer ou não não vai impedir os planos de Deus. A questão é se você e eu faremos ou não parte deles. Seremos seus aliados. Deveria estar bem claro nossa mente que se Deus fosse contabiilizar, anotar e cobrar todas as nossas dívidas no papel, só merecíamos a morte. Todos.

Me pergunto, tantas vezes, porque Ele não se revela visível a todos. Por que só alguns O “veem” e decidem servi-Lo? Por que Ele é como o vento, não O vejo, mas O sinto? Fico encasquetado com a ideia do “bem aventurado os que não veem e creem”. A fé é a certeza das coisas que se não veem e a convicção das coisas que se esperam”. Talvez a resposta esteja na pergunta: “quem é Deus para você?”.
Se for só uma energia, claro, para que confiar em alguém que você se sente superior ou igual? Se esvai e não interfere na nossa vida? Com quem você não tem um relacionamento diário, para conhecê-lo um pouco mais a cada dia.

Alguém que pede obediência voluntária em vez de forçar a sua consciência. Ele é mais do que isso. Sustenta os planetas em suas órbitas perfeitas. Nunca um planeta desviou-se. No entanto, desceu até aqui, assumiu a natureza humana e tomou o meu lugar na cruz.

“Quando eu era menino, pensava como menino, sentia como menino. Quando cheguei a ser homem, deixei as coisas próprias de menino e me vi refém da necessidade de voltar a ser criança. Criança, na malícia, adulto no entendimento; e sênior na sabedoria” (adaptação minha)

A conexão de todos esses fatores me faz refletir sobre o quanto este mundo está farto de informação e conhecimento. As pessoas têm argumentos em multiplicidade para tantas questões. Inclusive provar que Deus não é tão necessário assim e que é possível levar a vida sem Ele. Me intriga que tais conhecimentos tenham cada vez mais sabedoria humana e menos a de Deus. Estamos nos tornando especialistas em roubar a Deus. “Eu fiz, eu faço”, são argumentos recorrentes. Inventei o satélite, a televisão, o computador, a tecnologia.

Vejo como um misto de alegria indizível e lástima quando o indivíduo que escapou do ataque de um leão (num contexto factual e simplista) na savana, sai ileso e diz: “Na hora, eu pensei, vou evitar olhar em seus olhos.

De sentir medo. Vou segurar em suas mandíbulas e o empurrar forte. Aprendi isso com alguns domadores e especialistas, mas usei também o instinto. Deu certo e o animal fugiu, após quebrar minhas costelas e uma das pernas”. Aplausos para mister Estratégia. Mister Coragem. Mister inteligência.

Escapar do ataque de um animal de 400 quilos para mim, porem, é sinal da intervenção de Deus. Milagre para dar graças a Ele, em vez de atrever-se a ficar contando vantagem, assumindo o papel desempenhado pelo anjo.

Chamo isso de autêntico roubar a Deus. Claro que a tentação do “Eu fiz” fala alto e em bom som. Minha lógica racional e espiritual, porém, me dizem assim: “Agora, que tudo já passou e eu estou a salvo, sinto a tentação de dizer que botei pra quebrar, fiz e aconteci. Mas levando em conta a situação e o 0% de chance que tinha de sobreviver, no escuro e sem ajuda, creio que Deus me salvou.

Se este foi um milagre porque Ele me ama muito e não quis me perder, pode até ser uma questão particular.


Há um caso, quase sempre repetido em terremotos, que não há como o sujeito contestar a ação de Deus. Um bebê resgatado de um terremoto registrado seis dias antes. Sem comida, sem proteção e o amor da mãe e (sobre) viveu! Saiu sem um arranhão.

Criança, só podia ser invenção de Deus. Delas vêm o perfeito louvor.

Gosto do que Deus diz a respeito de Si mesmo: “Ainda que uma mãe possa esquecer do próprio filho que amamenta, eu, todavia, jamais me esquecerei de ti”. De ti, adulto ou criança.

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