quarta-feira, 9 de abril de 2008

Nossa natureza

“Uma idosa acostumava a meditar às margens de um rio foi surpreendida, certa manhã, ao encerrar sua meditação, pela cena de um escorpião flutuando indefeso na forte correnteza. À medida que foi arrastado para mais perto, prendeu-se nas raízes que se ramificavam para dentro do rio.

O escorpião lutava freneticamente para se libertar, mas cada vez ficava mais emaranhado. Imediatamente a senhora aproximou-se do bicho que se afogava e este, assim que ela o tocou, cravou-lhe seu ferrão. A mulher afastou a mão, mas, após ter recobrado o equilíbrio, tentou de novo salvar a criatura.

Todas as vezes em que ela tentava, porém, o ferrão da cauda do escorpião a atingia com tamanha gravidade que suas mãos sangravam e seu rosto distorcia-se de dor.

Um transeunte, ao perceber a idosa lutando com o escorpião, gritou:

-Qual o seu problema, sua tola? Quer se matar tentando salvar essa coisa feia?

Olhando nos olhos do estranho, ela retrucou:

- Só porque é da natureza do escorpião ferroar, por que eu deveria negar minha natureza de salvá-lo?

Não há muitos de nós que arriscariam a vida para salvar um escorpião. No entanto, a maioria das pessoas, sem dúvida, já experimentou um chamado interno para ajudar um estranho em necessidade. Mesmo sem nenhuma vantagem pessoal.

E, se de fato agiu guiada por esse impulso, teve como conseqüência uma sensação confortável de “ter feito a coisa certa”.

C.S.Lewis, em seu destacado livro Os quatro amores, explora ainda mais a natureza desse amor generoso, que ele chama de “ágape”, palavra derivada do grego.

O autor salienta que essa forma de amor se distingue das outras três (afeto, amizade e amor romântico), podendo ser mais bem compreendida como vantagem recíproca, e que podemos vê-la destacada em outros animais além de nós.”



Turma do Cocoricó

O drama de Júlio, que ama Lola, que ama Alípio, que não sabe amar porque é um cavalo:

Obs: texto embolado. Resultado da mistura de caipirês com surfês e linguagem culta do filho do patraum, estudante de letras em Portugal.

Claquete ação! Gravando!

Viu, neguinho! Perdeu teu lugar no coração de litlle bee. Além de morti matada, também morreste de morti murrida. Passastes do quase pro já. O já, de já fostes. ]
Resumindo: no presente, tanto do indicativo como do futuro, ou do passado, tu és agora pretérito imperfeito.
É isso Jr. Sem chance com bee.
Também pudera, ô mano, você não soube valorizar tudo que veio à tua mão!
Teve o privilégio de conviver ao lado de uma criatura tão doce e não se ligou que se tratava de uma princesa?
Logo tu, que adora se ligar?
Merece mesmo ser deletado do coração da fabricante de mel. Agora, nem adianta ensaiar arrependimento.
Tarde demais, Litlle agora só usa embalagem fashion. De todas as cores e modelos. No estilo,
a vida é bela em preto ou branco e a cores. Uma graça!
Não nega a cara de apaixonada. É só vive, agora, pra nova paixão.
Pelo visto, tá derretida pelo tal do PR, vistes?
O P é depois do J e, como tu, também tem R. Daí a explicação para o novo estilo de se vestir há six months.
Bom que eu pego carona nessa nova fase.
JR e PR, a letrinha R permanece, mas o nível agora é mais alto.Por falar nisso, a esta altura tais vendo que com litlle bee
não adianta mais essa de “se arrependimento matasse...”. Até porque tu já morreu mesmo.
Outras trocentas chances que fossem dadas e tu jogaria pela janela de novo?
Mas num liga não, sua besta (falando com o cavalo).
Se tu soubesses do meu caso, ias chorar. Tu, pelo menos, fizeste parte. Adoçou a vida com mel.
Vai guardar esses momentos a vida inteira e mais seis meses. E olha que era todo dia.
Até nu feriado. Dividistes o tempo, projetos e sonhos de litlle bee.
Foste presenteado com o que há de mais íntimo e especial nela.
E eu, que nunca vou poder morrer como tu. Nem de morti matada nem murrida, porque como isso seria possível
se eu nem existo pra ela. Nunca, nunca, nunca existi? Pense!
Escrevi três vezes nunca, pra ver se errava e escrevia “uma vez”. Nem assim.
Uma vezinha só, que fosse! Mas quem disse? Só saiu nunca. Adianta de nada, sô!
Pra tu teres uma idéia, sou tão imperceptível para litlle bee que ela pensa que eu estou quando não estava.
E ainda diz que é capaz de jurar que eu estava.
Se isto servir de conforto. Tu pretérito imperfeito, eu, num passo mesmo dum sujeito oculto.
Sabe como é? Vou dar um exemplo. Tipo aquele cara estilo crucifixo de tão magro.
Sei... o cabra é tão esquelético, mais tão esquelético, que quando está de frente a gente pensa que tá de lado? Isso.
E quando tá de lado, a gente pensa que já foi embora. É o meu caso. Não no físico, claro.
Ai, ai, aquele bichin nunca me deu as mesmas opções: morrer de morti matada ou de morti murrida.
Ah!, pelo menos ia morrer filiz.
E sabendo que, no final das contas, fui amado.
Então, deixa de choro JR e vai cuidar da vida, moleque!
De qualquer forma, pra mim foi até bom, porque, às vezes fico matutando com os meus botões:
“Já pensou se aquela abelhinha tivesse piscado pra mim?” Ai, ai.
Seria quase impossível resistir.
No mínimo, eu teria transferido meu AP (leia-se: meu querido paiol) pras estrelas.
E as nuvens iam virar meu travesseiro. Saltaria de pára-quedas no Caribe, Frankfurt e Veneza.
Levava ela de gôndola, ouvindo músicas românticas.
Tirava a careta do rosto na hora de comer chocolate.

Mas bicho, uma coisa seria certa, ia me sentir tãosei lá, (socando a cela do cavalo Alípio)! que na hora de tomar mel ia acabar me atrapalhando todo e, em vez do néctar, ia comer a abelha.

Que viagem! Deixa queto.
Prefiro cultivar o que sempre cultivei aqui na roça. Carinho inocente. Amor desinteressado.


Que viagem, mesmo! Então, vamos deixar de conversa mole e cantar, que é melhor...

Solta o playback: “Nos dias quentes de verão, a gente vai ao rio nadar. E nada, nada, nada...”

Deus pode ser achado



O senso de profundidade é algo bem além da busca que fazemos de Deus. É o que sentimos quando O encontramos:

Um jovem milionário empregava toda a sua fortuna em viagens aos pontos mais distantes do planeta na busca de um objetivo de vida: encontrar Deus. Esta era a maior necessidade de sua vida. Seu principal pensamento. Por essa busca, não importava quanto recurso financeiro fosse exigido. Ou sacrifícios, aventuras e desafios. A cada tentativa, no entanto, retornava frustrado.

“Deus está dentro de você”, ensinavam os grandes mestres. Mas ele nunca o tinha visto ali. “Refaça a mesma peregrinação de Deus, quando aqui esteve, e o achará no caminho”, completavam outros. A emoção de visitar as ruínas e supostas pegadas de um Deus, não era suficiente para preencher o vazio existencial causado pela ausência dEle.

Nada, porém, o fazia desistir da busca. Até chegar aos seus ouvidos a notícia de que um homem, conhecido pelo nome de Sábio, seria o único capaz de, finalmente, apresentá-lo a Deus. Se não fosse isto, pelo menos que o ensinasse a forma correta de chegar até Deus, encerrando a longa jornada.

Não esperaria nem um instante. Dirigiu-se para aonde estava aquele homem, num longíquo país. Ao achá-lo, não quis perder tempo. Sequer aceitou o convite para entrar na casa do anfitrião. Em lugar disso, tratou de bombardeá-lo com perguntas que exigiam respostas claras e objetivas. Tinha pressa de achar Deus.

“Siga-me”, pediu o sábio, entendendo não haver alternativas e que a longa procura havia desgastado a fé e confiança do rapaz, deixando a ambas por um fio. Andaram até uma bela praia, próxima à casa do sábio. “Vamos entrar”, determinou aquele nativo, enquanto o jovem atendia de imediato. Quando a água estava acima do peito do rapaz, o Sábio investiu sobre ele e o afundou. Apanhado de surpresa, tanto pela ação como pela inesperada força do homem, o rapaz passou a se debater na tentativa desesperada de salvar a vida.

Enquanto isso, uma profunda dor e frustração invadiu seu ser. Refletia ter vivido o tempo inteiro buscando a Deus e agora, morreria em sua busca em vão. Traído pelo seu sonho maior. Se ao menos tivesse ido ao lugar certo e a morte fosse causada por essa busca!  Mas, não! Ali estava um pseudo conhecedor de Deus, no qual tinha depositado inteira confiança. Estava prestes a dar o último suspiro, quando o sábio inexplicavelmente o largou. O rapaz subiu rápido, disposto a recuperar o fôlego. Depois, tirar satisfação com o 'quase' seu algoz.

Mas antes, precisava respirar. Foi o que fez ao subir à tona. Naquele instante, seus pulmões quase queriam inspirar o suprimento inteiro de ar do planeta. Subiu buscando com todas as suas forças resgatar o ar perdidos. Recuperado, ele dirigiu-se ao sábio com inenarrável decepção:

- Até hoje passei a minha vida inteira buscando a Deus. Cheguei ao teu país crendo que o senhor seria, finalmente, o homem que me mostraria Deus. Mas, em vez disso, o senhor tenta tirar a minha vida?, questionou em tom de indignação, lamento e raiva o rapaz.

Retrucou o Sábio: "Meu jovem, quando você buscar Deus como buscou o ar para seus pulmões a poucos instantes, você o encontrará. Quando Deus for a coisa mais importante da sua vida, a principal novidade dos seu dia a dia. A razão maior do seu existir, então você o encontrará".
Para alguns, o encontro com Deus só se dará quando a busca for a coisa mais importante da sua vida. Quando Deus for uma questão de vida ou morte.

Mas me permita um pequeno ajuste nessa concepção. Eu concordo que para encontrá-Lo, devemos fazê-lo de todo coração, de todo ser. Como se fosse uma questão de vida ou morte. Mas não creio que seja necessário qualquer sacrifício. Ele está mais perto de nós do que a nossa vã imaginação pode projetar. Na verdade, É Deus quem está a nossa procura. Caso contrário, como explicar a Sua voz falando ao nosso coração.

Não uma vez, mas tantas vezes no dia. Digo isso com pureza de alma. Quem se atreveria a dizer o contrário. Negar já ter ouvido Deus falar a sua consciência. Ter tentado uma aproximação. Penso que a questão não é necessariamente procurar Deus. É não fugir dEle quando o encontrarmos. Algo que os seres humanos se especializaram desde Adão e Eva. “Onde estás?”, perguntou Deus, no Jardim do Éden. “Estávamos escondidos de Ti”, respondeu o casal, para tristeza de Deus.

Ah, como isso pode acontecer hoje? Posso responder com uma experiência comum na infância dos garotos? É comum para as crianças do sexo masculino brincarem de caçador. Com uma espada de madeira ou outro tipo de material eu e outros garotos já saímos mato adentro, brincando de caça ao “bicho”. “Está preso!”, bradávamos, com ar valente, de triunfo, diante de uma moita, onde estaria 'entrincheirado' um suposto inimigo.

Sem perceber, um dia daqueles, avançamos cada vez mais pelo interior do matagal, rendendo várias moitas. Até que, que os matos começam a se mexer em nossa direção. Então é que caímos em nós, percebendo estar superdistantes de casa. Os matos, porém, continuaram “andando” em nossa direção. “Ei!”, imploramos, em uníssono, como se tívessemos treinado o que dizer. “Estávamos só brincando. Não sabia que você era tão real”, dissemos isso e demos no pé.

Era só o nosso pai tentando nos pregar uma peça, para nos ensinar a não ficar tão longe de casa. Mas nós não o reconhecemos e fugimos. No dia a dia também acontece o mesmo entre você e Deus o Pai. Ele está aí, bem junto de você. Embora, quase inconscientemente, cobremos sua presença não estamos dispostos a essa experiência. Nesse instante, Ele está bem aí, do seu lado. Mas quando Ele o faz, você foge. “Não pretendia que fosse tão real”, pensa você antes de fugir.

Como assim? Será que um dia desses qualquer você não já ouviu alguém falando com tanta convicção de Deus e de como Ele está ao nosso lado? Será que não sentiu seu coração arder? E o que fez? Tentou abafar sua voz na sua cabeça ou procurou alimentá-la? Quando vezes você já tentou buscar a Deus? Pode ser que agora Deus tenha acabado de encontrá-lo. Qual a sua reação?

Sabe de uma coisa, Deus fez o nosso coração com a fechadura pelo lado de dentro para demonstrar o quanto nos respeita. Significa que só você pode abrir a porta. Que ele jamais forçará a entrada. Que ele chega à porta e bate. Se você abrir, ele entrará, senão, ficará à espera. Simplesmente, porque quer amor e relacionamento voluntários de você. Ele não quer alienados, por isso te deu liberdade de escolha.

Esses são detalhes do caráter de Deus que eu, particularmente, amo. Insisto:Talvez, nesse instante, Deus tenha acabado de achar você. Qual a sua reação? O que responde a Deus, ao Ele falar ao seu coração?

Que história é essa? Eu não ouço nenhuma voz me falando, muito menos a de Deus. Se você me diz isso,venha comigo. Quando vou ao bairro de São Cristovão visitar um amigo meu tenho a clara ilustração de como funciona a comunicação de Deus comigo. Sou obrigado a interromper o papo repentinamente na passagem das aeronaves sobre “nossas cabeças”. É um barulho ensurdecedor. Mas as pessoas se comunicam normalmente, às vezes com breves pausas. Dormem normalmente. Sonham.

Quando curioso pergunto aos amigos a respeito de como eles conseguem dormir ou conversar com tanta zoeira, eles simplesmente respondem: "Já acostumamos. Nem ouvimos mais!". É exatamente isso que ocorre quando ouvimos a voz de Deus, uma, duas vezes e tantas vezes, mas não damos ouvidos para obedecê-la. Chega ao ponto em que, por mais alta que ela fale ao nosso coração, não a ouvimos mais. É sufocada por outras vozes.No entanto, por mais que você negue que a ouve, ela te fala. Pode até tentar sufocá-la no pensamento. Mas não pode impedir que a voz de Deus continue falando ao seu coração.

Ao colocar essa voz em segundo plano, nos tornamos insensíveis. Isso leva tempo. A voz é então confundida com outros ruídos do dia a dia. Nossa mente não identifica mais a voz de Deus, enquanto seguimos os nossos próprios caminhos. Se, no entanto, passarmos a dar atenção à voz de Deus e a ela obedecermos, nosso relacionamento será cada vez mais íntimo com Ele. Cada vez mais seremos sensíveis ao que Deus está nos dizendo.

Seremos como aquele garoto que todos os dias brincava com Deus. Um dia ambos se divertiram tanto que não viram as horas passarem. Estava anoitecendo quando se deram conta. O garoto disse a Deus: "já está tarde. Fique para o jantar".
“Ok, estou com fome mesmo”, respondeu, amavelmente, Deus. Encerrado o jantar, Deus se ergueu da cadeira para ir embora, ao que o garoto falou: “Não, agora está mais tarde e Tua casa muito distante, dorme aqui em casa hoje”. Deus aceitou o convite.

No dia seguinte, ambos voltaram a brincar. Ao mesmo tempo, se distanciavam da casa do menino. Ficou tarde novamente e o garoto, superfeliz com a idéia de continuar com Seu amigo em casa, disse: “Olha, vamos para minha casa de novo, amanhã você vai embora para a sua”. Deus retrucou: “Acontece, que hoje nós estamos mais longe de sua casa e pertinho da minha. Hoje será você quem vai dormir na minha casa”.

Esta experiência está resumida na Bíblia, em Gênesis, capítulo 5, no verso 24. Claro, com a licença poética para colocar esse episódio na vida prática ou atualizado.

Veja você que o cristianismo prático não faz ninguém diferente ou mais santo do que os outros. A diferença estar em andar com Deus. Mas isto, se não nos livra de pecar, no coloca dispostos a lutar contra o pecado. Pecadores todos somos. A Bíblia diz isso: “Como está escrito: Não há um justo, nem um sequer”, Romanos no capítulo 3,no verso 10. Sem Deus, nosso eu toma o lugar que é dEle. Longe de Deus, temos incrível dificuldade em dizer não a nós mesmos.

Concluo, então, que ser cristão não faz as pessoas melhores e mais sintonizadas com Deus do que outra qualquer neste planeta. O que nos faz bons, puros e verdadeiros é o tipo de relacionamento que temos com Deus a cada dia. Andar com Deus é o meu maior sonho.

Sonho também com isso para você.

(2007) Quem tem ouvidos ouça...


Saber ouvir é muito mais que uma questão de prestar atenção, se o coração for sensível à voz de Deus

Estava de saída, quando fui convencido pela idéia luminosa de testar caixas para com elas acessar uma caixinha muito mais formidável. O argumento de os ‘fins justificam os meios’ acelerava as batidas de um coração, ‘comunista’ por conveniência, incentivando ir em frente. Nesse instante, uma voz sussurrou em meus pensamentos: "E depois?" Esta frase me pareceu familiar. Embora curta, transmitia particular significado. "Ah, não! Estou pensando no agora. O depois fica para depois", retruquei, aproveitando o jogo de palavras casual, tentando imprimir uma lógica natural à resposta, a fim de me livrar da voz. Enquanto isso, seguia em direção ao alvo para encurtar o tempo de reação da voz. "E depois, nos dias seguintes, quando a credibilidade construída há tanto tempo se perder? Tem idéia de como recuperá-la? E certeza de que não irá falhar?, insistiu a voz suave, em nova tentativa de me fazer refletir sobre o que estava pensando, ao mesmo tempo em que tentava me convencer a recuar. "Talvez consiga contornar, mas não vou perder essa oportunidade. Não posso! Entende?", pedi, desejoso de obter aprovação.

"Acha que vale a pena violar conceitos, trair a consciência, pôr em risco valores e a integridade diligentemente formada, em troca de um momento fugaz. Nem mesmo você pode precisar se será bem sucedido ou se isso o fará bem?", reagiu a voz. Interessante não ter ouvido até ali qualquer frase começada ou encerrada com um “não”. Isto me a motivou a prosseguir, ignorando a intervenção. "Consciência? Eu estou muito consciente do que faço agora. Do quanto desejo isso", voltei a responder, imaginando ter quebrado o argumento anterior e finalmente me livrado da voz.

Agora estava na linha de ação e em instantes estaria feito. Literalmente, "estou feito", pensei. A voz, como num último apelo, pareceu se materializar e tocar meu ombro, enquanto dizia com extrema elegância e gentileza: "Ainda dá tempo de voltar atrás”. Silêncio.

“Claro que você pode escolher. É livre para isso. Só você tem esse poder de decisão. Eu não posso impedi-lo, por respeitar seu livre arbítrio. Não é da minha natureza passar por cima da vontade de ninguém. Mas se você atender a minha voz posso tirá-lo daqui a tempo. Agora mesmo", apelou a voz, parecendo cada vez mais distante.
Curiosamente, não era uma ordem. Nem mesmo uma advertência. Tive a impressão de um apelo. Direto ao coração, que de repente ficou triste.

Percebi, então, estar arriscando muito alto. Em troca de um momento, como disse antes, fugaz. Por algo que eu poderia me arrepender por longo tempo. "Eu quero", respondi, finalmente. "Na verdade, é muito difícil para mim tomar outra decisão que não a de seguir em frente, agora, depois de estar magnetizado. Mas eu escolho recuar", respondi, com esforço. Senti como se uma mão me erguesse e conduzisse de volta. No caminho, a voz aconselhou: "não tente falar nada agora, vai ser pior..."

Eu não aceitei o conselho. Tentei falar mesmo assim, explicar, mas de fato teria sido melhor o silêncio. Lembrar tal experiência e de que fui capaz de conceber a idéia não fere mais sentimentos como antes. Ao mesmo tempo, me traz enorme bem à consciência saber que não consumei tal plano. Me agrada saber que travei uma luta interior. Como um soldado, sai ferido, é verdade. Mas imagino que não vencido. Retornei sem desapontar a Deus. E a quem julguei especial para merecer tal sacrifício. O fiz em nome de tudo que há de relevante na vida. Como resultado, meu sono, que durante o tempo em que fiquei sem explicar demorava a vir, voltou a ser natural.

É verdade que no mesmo dia bateu um arrependimento danado. Algo me dizia em tom de reprovação: “Você perdeu uma chance que nunca mais terá! Jamais voltará outra oportunidade de ser feliz, ainda que momentaneamente, como a que acabou de perder! É um tolo!”

Talvez. Mas considerando que para chegar a algo tão lindo, provavelmente uma das coisas mais lindas que poderia conhecer, precisaria trapacear, fico com a decisão anterior. Chegar àquele prêmio, só livremente. Por consentimento mútuo. Senão, só traria conseqüências e desconfiança. Concluo que a última voz, que me chama de tolo por não ter seguido em frente, certamente, não é a de Deus.

É pena que apesar de abrir o coração, com sinceridade, e contar não ter ido em frente a reação foi como se tivesse cometido o erro. Aquela de matar formiga com tiro de canhão ainda me deixa confuso. O importante é que fui leal a my bee. Talvez quando chegar os 10x7, finalmente estejamos rindo disso tudo... Até lá eu ainda sentirei o mesmo carinho inocente de agora.

Na verdade, agora estou tentando ser feliz por um dia. Pois feliz o homem que, por um dia, soube entender a alma de uma mulher! Um dia nos dá asas, ensina a voar, e depois as toma de volta sem qualquer explicação. No dia seguinte, quando decidimos partir, ela impede o nosso vôo. Mesmo sabendo que tais asas não mais lhe pertencem.

Daria a vida para contribuir pela felicidade de litle bee. E dar a vida é antes de tudo esforçar-se pela realização dos projetos dela. É gastar-se. Enfim, esgotar todos os recursos. Aí, quando nada mais houver a ser feito, morrer por ela. Claro, apenas uma metáfora. Mas o quanto sentimento há nesses pensamentos, só Deus para avaliar. Gosto de felicidade, alto astral. Dai porque não querer perder contatos com quem tem essas características. E para que esse astral permaneça, tenho incursionado em outras direções. É mais uma tentativa de protegê-la de mim mesmo.

Bem, há algumas maneiras de se despedir. Dando adeus para sempre é um jeito. Saindo sem dar uma palavra, sutilmente, sem qualquer sinal, é outro. Se por acaso for percebido, passar a impressão de que ainda está ali. Mais presente do que outrora. Outra maneira mais sutil é sair sem ir embora. Distanciar-se apenas, tomando todas as precauções para jamais dar essa impressão. Porém, tendo o cuidado de aproveitar qualquer oportunidade que surgir para prometer sentimento até 10x7.

Quem ama não fica só na torcida. Participa da felicidade. Colabora. E vibra de felicidade, mesmo sem estar incluído nela... Que importa tudo isso, se my bee estiver feliz? Ah! Felicidade! Passamos a vida inteira a sua busca. Quantas loucuras somos capazes por ela. Finalmente a descobri. Do meu jeito, porque se tem algo subjetivo tanto quanto a mulher, esta se chama felicidade. O ser humano quer ser feliz econômica, profissional, social, afetiva e espiritualmente. Simplesmente porque a vida não tem sentido se ela não nos proporciona felicidade.

Posso vislumbrar o efeito dessa experiência, sem ter chegado lá. Basta sair da narrativa alegórica do início, embora seus elementos, por comparação, evoquem uma realidade superior. Mudando desta para a experiência de um surfista que não resistiu às ondas de uma bela praia. Apesar de se deparar com a série de placas avisando sobre a presença de tubarões. "Perigo, praia infestada de tubarões!", alertava o letreiro de uma delas.

O rapaz não fez caso do aviso. Mergulhou de cabeça na água. Algumas braçadas vigorosas e em instantes surfava com o corpo uma grande onda. Pouco depois pareceu cair em si, começando a nadar vigorosamente de volta. Era tarde demais. No meio do caminho acabou tragado violentamente para o fundo.

A família do rapaz processou o Estado.

No dia do julgamento, o advogado de acusação chamou o guarda que estivera no local e fez as seguintes perguntas:- O senhor pode assegurar que aquele rapaz leu as placas?, indagou o advogado.

- Sim. Tenho absoluta certeza, respondeu o guarda.

- Mesmo assim ele foi em frente?, quis saber o advogado

- Sim. Foi a resposta convicta do guarda.

- Quando o senhor o viu entrar na água usou algum mecanismo para convencê-lo a voltar atrás?, perguntou novamente o advogado.

- Eu corri à praia e apitei várias vezes para o advertir, respondeu o guarda.

- O senhor pode assegurar que o rapaz o ouviu e entendeu que era a ele que estava sendo dirigida a advertência?, voltou à carga o advogado.

- Sim. Tenho total certeza, confirmou o guarda.

- E, mesmo assim, ele o ignorou e entrou na água?, indagou o advogado, fazendo caras e bocas e ar de espanto para os jurados, juiz, testemunha e os parentes do rapaz.

- Esta foi a conclusão a que cheguei, senhor, lamentou o guarda.

- Excelência, o réu é culpado. Morreu consciente de que estava invadindo uma área de risco, apesar de alertado de todas as formas, concluiu o advogado de acusação, encerrando o assunto com ar de triunfo.

Ao chegar a vez do advogado de defesa, este, recorrendo novamente ao guarda, fez duas perguntas apenas:

- Quando o surfista foi atacado pelos tubarões, ele estava nadando para pegar mais uma onda ou tentava retornar à praia?, indagou o advogado de defesa.

- Ele olhou para mim e passou a nadar em minha direção, mas foi atacado pelos tubarões, lamentou novamente o guarda.

- Excelência, o réu é inocente. Ele morreu obedecendo, concluiu o advogado de defesa.

A Justiça norte-americana deu ganho de causa à família do surfista.

Lançar-se ao mar de prazeres não é ruim. Dificilmente somos atraídos por algo que não desejamos e se mostra ruim aos nossos olhos. Se assim fosse, não haveria significado plausível para definir tentação. E ninguém precisaria se preocupar com detalhes como, por exemplo, cuidar da própria moral. Poderia pôr em risco a própria integridade sem precisar estar preparado para o depois. Deus, no entanto, sempre está a postos para mudar nossa trajetória.

Chega a projetar um provável desfecho caso ignoremos Sua voz. Se necessário for, usará o apito do guarda para nos acordar. Falará ao coração se perceber que O deixamos para depois.

Se tomarmos o letreiro nas placas como metáfora, eles seriam os conselhos da Bíblia. O apito, a própria voz da consciência. Parece pouco diante do mar, representação da infinidade de prazeres que nos desviam do alvo, do Caminho. Às vezes reflito com os meus botões: como resistir, se todos nós nascemos surfistas? Nascemos com uma natureza amante do prazer. Com tendência para gostar daquilo que nos afasta de Deus. Somos, por natureza, resistentes a Deus. Com tendência natural para gostar do que Ele não aprova.

O Mar é, no entanto, o maior de todos os desafios. Simboliza o nosso indomável EU. Capaz de nos submergir e levar junto quem amamos. Nele habita o tubarão voraz, que de tanto ser alimentado acabará por nos devorar. Tubarão mais forte do que qualquer de nós, porém, não irresistível.

O segredo para vencê-lo é o mesmo usado contra vis tentações. Seguindo o exemplo do sexo. O sexo é o único animal que quanto mais você alimenta mais o torna fraco e faminto. Entretanto, quanto mais o deixa com fome, mas o alimenta e o deixa saciado.

Nas experiências de abertura é identificada uma conexão real entre Deus e o homem. Deus é capaz de usar meios, inclusive a comunicação pessoal, para falar com o homem. Se formos sensíveis e obedecermos, Sua voz continuará falando. Ou melhor, ela continuará audível. Caso contrário, irá aos poucos diminuindo o volume, até não mais a percebermos. Vai parecer que Deus parou de falar, mas nós é que paramos de ouvir.

Parece incrível para as pessoas aceitar a idéia de Deus falar aos seres humanos. Como assim, Deus falando com você?, questionam alguns. Ele fala sim, sempre falou, mesmo para aqueles que não o amam e recusam ser seus amigos. Quanto mais exercitamos a comunicação com Ele, mais clara será sua voz à nossa mente.

A questão é que, ouvir a Deus e decidir obedecê-lo, envolve decisões contrárias à nossa própria vontade. E nem todo mundo está disposto a dizer "NÃO" a si mesmo. Muitas vezes, leva-nos a situações que vão de encontro ao nosso estilo de vida. E não queremos adotar outro estilo. Por exemplo, assumir publicamente que acreditamos em Deus e nEle estão nossos princípios.

Não é apenas ter coragem de defendê-lo em secreto, mas publicamente. E muitos têm vergonha de assumir Deus (Romanos 1: 16 e Lucas 9:26). Têm medo de serem ridicularizados pelas pessoas e colegas. Têm vergonha de parecerem diferentes do resto das pessoas.

Pedro, um dos discípulos de Jesus Cristo, experimentou tal crise existencial. Em particular, tinha feito uma confissão sincera a Cristo. “Ainda que todos te neguem, eu não! Mesmo que tenha de dar a vida por isso”. Essas palavras foram ditas momentos após Jesus avisar aos seus discípulos que estava prestes a morrer. E morte de Cruz. Deus, através de Jesus disse mais. Quando Jesus fosse preso, açoitado e morto, todos, inclusive seus amigos mais íntimos, os discípulos amados, se escandalizariam. E, fugindo, o deixariam passar pela provação sozinho.

Conhecedor da natureza humana (Jeremias 17:9). Cristo teve pena de Pedro e o alertou: “Simão Pedro, hoje, antes que o galo cante, três vezes me negarás”. Ao ouvir isso, o apóstolo jurou, garantiu, esperneou, se indignou com a falta de fé de Jesus nele. Prometeu lealdade até a morte. Mas recuou quando viu Jesus manietado e conduzido entre apupos do populacho, em praça pública, ridicularizado pela sociedade. Teve vergonha de ser chamado cristão, de discípulo.

Se fosse um contemporâneo meu, sentiria vergonha de ser chamado de evangélico, nome mais em moda hoje. Embora eu, particularmente, não me identifique com a nomenclatura evangélico. Penso que coloca num grupo só toda sorte de pessoas que professam ser de Deus, mas em sua maioria O não obedece. O nome evangélico soa falso.

Pedro, então, teve uma idéia luminosa para se livrar das pessoas que o identificavam como seguidor de Cristo, em meio à multidão. Começou a falar na gíria. Tentando ser eloqüente, recorreu a uma série consecutiva de palavrões, enquanto negava ser discípulo de Cristo. A pressão da multidão sobre si o fez negar sua fé em Deus.
Essa experiência contradiz a máxima de a voz do povo é a voz de Deus.

A voz do povo é um dos elementos recorrentes no desvio das pessoas. Quantas vezes já ouvi do povo: “que bobagem é essa de querer seguir a Deus? Faça você mesmo sua vida. Essa história de acreditar na Bíblia foi no século 13. Agora estamos na pós-modernidade. Acabou. Se libere. Viva a vida!”

Não é fácil assumir que temos fé em Deus. Defender acreditar termos sido criados por Deus em vez de fazer parte de uma escala evolutiva de seres. Assumir isso, em pleno século 21, constitui uma afronta imperdoável ao conhecimento das mentes intelectualizadas. “Onde já viu”, ouvia Pedro a voz da multidão. Alguém acreditar que um simples carpinteiro é Deus e que tem poder para fazer milagres? Pedro atendeu à argumentação retórica e começou a praguejar, num recurso providencial para as pessoas crerem que ele não tinha fé em Cristo. Nada a ver com Ele. Ou pelo menos acabara de desistir de Deus.

O danado é que quando estava disparando uma saraivada de palavrões e praguejando em série, seus olhos cruzaram com os de Jesus. Esperou um olhar repreensivo, uma severa advertência e promessa de acerto de contas no juízo vindouro, o qual sabia Pedro ser merecedor. Estava sendo tão traidor quanto Judas. Mas o que Pedro não contava era com o olhar compassivo de Jesus.

Ali estava Deus negando-se a condenar um homem culpado. Mesmo apanhado em flagrante. “Pedro, meu amigo, eu te avisei que tomasse cuidado”, refletia Pedro, como se ouvisse a VOZ de Deus. Mas não precisa seguir o mesmo caminho de Judas, que recusou o perdão. Aceite, eu perdôo você”.

Foi demais para o coração do orgulhoso discípulo. Como alguém ainda podia perdoar a quem tinha ido tão longe? E saindo dali, Pedro chorou amargamente. Tinha vergonha novamente, mas agora de si mesmo. Como teve a coragem de negar ser amigo do seu melhor amigo?

Daquele dia em diante, porém, experimentou uma nova vida. Pediu perdão a Deus e se tornou um dos mais fiéis seguidores de Deus. Em sua morte, também de cruz como Seu mestre, recusou-se a morrer como Jesus. Pediu para ser crucificado de cabeça para baixo.

Lembro-me do dia em que estava num solitário ponto de ônibus, por volta das 22h30, quando ouvi uma voz mandando eu sair dali naquele mesmo instante e depressa. Não digo que ouvi uma voz audível. Não porque tema passar a impressão de estar sendo falso ou presunçoso. Mas porque, na verdade, o que tive mesmo foi uma forte sensação. Através do pensamento veio a impressão de que deveria sair urgente daquele lugar e subir em direção ao teatro Módulo. Resolvi obedecer.

Quando ia subindo, um homem tentava atravessar a rua em minha direção. Um carro da polícia passou entre nós e o homem, ao reconhecer a marca da PM, repentinamente sentou na calçada e começou a amarrar o tênis. Chamou minha atenção o fato de o tênis não estar desamarrado. Não quis saber o porque. Apenas agradeci a Deus e apressei os passos. Poderia ter sido apenas uma sensação, o tal do sexto sentido. Porém, não consigo achar sentido no fato de o homem ter sentado tão rápido e começar a amarrar um sapato que já estava amarrado... e, logo depois do carro da PM passar sair rápido do local.

Quando vou ao bairro de São Cristovão, visitar um amigo meu, tenho uma clara ilustração do que significa ouvir a voz de Deus. Somos obrigados a interromper o papo repentinamente quando passam as aeronaves. É um barulho ensurdecedor. Mas as pessoas se comunicam normalmente, às vezes com breves pausas. Dormem normalmente. Quando, curioso, pergunto aos amigos como eles conseguem dormir ou conversar com a zoeira, eles simplesmente respondem: "já acostumamos. Nem ouvimos mais".

É exatamente isso que ocorre quando ouvimos a voz de Deus, uma, duas vezes e tantas vezes, mas não damos ouvidos para obedecê-la. Por mais alta que ela fale ao nosso coração, não a ouvimos. Ao nos tornamos insensíveis, essa voz é confundida com os outros ruídos do dia-a-dia. Nossa mente não identifica mais a voz de Deus, enquanto seguimos nossos próprios caminhos. Se dermos atenção à voz de Deus e a ela obedecermos, nosso relacionamento será ascendente com Ele. Cada vez mais seremos sensíveis ao que Deus está nos dizendo.

terça-feira, 8 de abril de 2008

O melhor remédio pra saúde




Resolvi desobedecer ao médico e não tomar o remédio prescrito para combater e controlar o colesterol, medido no último exame em 254 hdl (Html?, rs). Ele, na verdade, não havia me dado opção, mas um ultimato: ou tomar um antídoto ou correr o risco de sofrer algo mais grave como o temido infarto. Exageradoo! Sai do consultório com a receita na mão e uma idéia persistente na cabeça: o remédio seria o meu plano B e Gisele bike meu plano A.

Antes de prosseguir, esclareço alguns pontos. A cada 12 meses, apesar de andar, correr e seguir uma dieta à base de verduras e legumes, frutas e ausência de carnes (quase vegetariano), meu colesterol subia média de 30 pontos ao ano. O vilão encontrado pelo médico do trabalho era o estresse. Este indivíduo, posso dizer com segurança, é parte integrante e permanente de qualquer redação e no dia de quem escolheu uma profissão como a minha. Ressalva feita para situar o quanto estava em apuros. O desafio permanente: "como não se estressar hoje, amanhã e no dia seguinte" só ampliava meu nível diário de estresse e, por tabela, as taxas do colesterol.

Paralelamente, martelava na minha cabeça o pensamento insistente de que eu não tinha muito tempo. Era preciso agir logo, uma vez que as veias estavam acumulando gordura do tal colesterol ruim. Enquanto isso, gisele bike permanecia literalmente esbanjando ferrugem num canto da garagem de casa.

Na loja de bicicletas de um ciclísta-atleta, competidor da categoria master A, decretei: reponha peças, dê manutenção geral e qualquer coisa necessária para ela funcionar 100% porque, a partir de amanhã, vou trabalhar com ela. Não sabia o que estava dizendo. Oito quilômetros de ida e oito de volta, estes contra o vento, na orla, não era para qualquer um. Somando 16 quilômetros para um quarentão, feito eu, sem treino, era demais. Bom, era mais do que uma questão de vida, mas qualidade de vida. A bike parecia nova, depois do trato, mas eu percebi naquele primeiro dia que era eu quem estava super enferrujado.
Na ida, menos mal. A favor do vento tudo anda. Mesmo assim, cheguei morto, após quase 60 minutos de pedal. Na volta, nem lembro, deu mais de uma hora e cheguei com a língua mais pra fora do que dogpipe cansado. (Dê um desconto porque, mesmo sem estar treinado eu andava em alta velocidade). Pedalava até a coxa doer, sem parar.

Ufa! foi o primeiro dia e eis que tudo era muito ruim! Antes, eu chegava em casa, subia e descia as escadas quantas vezes fosse necessário. Naquele dia, só fui quando chegou a hora de dormir. O resto do tempo, passei sentado, vendo televisão ou lendo. Quando subi, precisei de muito esforço para não reclamar, uma vez que a musculatura da coxa doía como se tivesse sofrido pancadas em toda a sua extensão. No dia seguinte, idem. Mas nada disso me fazia pedar lento, como eu via as pessoas fazerem na orla. Não é pra mim. Ou velocidade máxima ou nada.
E uma coisa, quando acordava e tentava me espreguiçar, a dor no músculo me fazia parar de alongar. Se minha avó fosse viva, diria, "só não desiste por vergonha". E foi o tive vontade de fazer, não pela vergonha. Mas a vontade de viver sem estar condicionado à ingestão de remédio me empurrava pra cima da bike. Detesto remédio. Não tomo nenhum. Além do senso de aranha, que me dizia no coração que essa persistência renderia uma boa experiência. Quem sabe, até um artigo para os jornais.

Ponha-se no meu lugar, pedalar todo dia até o trabalho, com uma mochila de acessórios nas costas. Vez em quando, o pneu fura, você pára em algum lugar seguro, põe cadeado na bike e toma um transporte até o trabalho. Na volta, resgata a bike e leva empurrando até em casa. De lá pra oficina e no dia seguinte, de novo. Outra hora, quebra o pé de vela, enfim. Deveria desistir. Algo me dizia que não. Mas ai vieram as quedas. Destaco três, pelas peculiaridades de cada uma delas. Uma besta, outra espetacular e a última um milagre não ter morrido.

A besta porque eu vinha devagar, quase parando, dobrei à direita praticamente na velocidade de um velocípede. Havia óleo na pista molhada da chuva e a bike derrapou pra frente, impedindo, mesmo a quem tem experiência de pedal iniciada aos 6 anos, parar a queda com o pé. O capacete neutralizou o choque da cabeça com o chão, mas a perna perto do joelho ficou em carne viva.
Parar? Imagina. Ainda tinha a espetacular, depois de passar três caras que tinham me deixado para trás 800 metros antes, com a frase de um deles: "tchau tio". Quando passei deles novamente tive o cuidado de seguir orientação dos atletas profissionais. Passar de passsagem, isto é, em velocidade, para não dar esperança. Duzentos metros depois e em boa velocidade caí na besteira de olhar pra trás. Eles estavam longe e lentos.
No entanto, quando olhei pra frente já estava na direção da mureta. Esperei o choque, pois frear nessa hora é pior. Voei uns dois metros e posei com as mãos. Pus a cabeça na grama e quase virei pra o outro lado. Parei o trânsito. Maior mico.

Meses depois, uma garota num corsa tentou dar a famosa 'roubadinha' e pegar o retorno, para não ter de dar a volta na avenida movimentada. Não me viu. A batida me lançou uns três ou quatro metros do chão. Em Frações de segundos, ainda no ar, meu pensamento era: "quando cair, tenho de me levantar rápido e correr, senão os carros vão passar por cima". Se tivesse perdido os sentidos jamais contaria os fatos. Só deu tempo de levantar e correr, enquanto os carros passavam onde eu estava.
Ainda deu tempo de pegar a bike e partir furioso pra cima da garota. Sou calmo, penso eu. É que, quando se está praticando exercícios, afirmam os especialistas, o sangue esquenta e daí para uma reação nervosa é mais fácil.
A reação daquela garota, aparentando 29 anos, me desarmou, entretanto. "Moço, quer uma 'aguinha'? Quer que eu leve você ao hospital? Você tá bem?", foram as palavras, proferidas de maneira aflita e gentil por uma moça bonita. Embora a tenha visto rapidamente. Peguei a bike, agora toda rangendo, e fui embora. Senti que era hora de parar. Afinal, já tinha feito exame e o colesterol baixado de 254 para 160. O mesmo médico tinha me dado dez na saúde. E mesmo que não, a lógica me dizia ser melhor morrer de colesterol do que no trânsito. Pelo menos, com o primeiro, seria mais lento e tinha remédio à mão. Fiquei parado três meses.
Nesse tempo resolvi falar coisas gentis para as pessoas que amo. Não importa o que pensaram. Me veio ao pensamento, o fato de que, caso tivesse morrido, teria perdido a chance de dizer-lhes algo importante. Que se bem não fizesse, certamente, mal não faria. Temi ter ido sem ter falado coisas doces às pessoas amadas. Mesmo se elas não entendessem ou me julgassem mal. Melhor assim, a ter deixado o convívio delas sem ter dito que as amo. Que delas sinto falta. Saudade quando não as tenho por perto. Quando não consigo verbalizar, digo sutilmente, com um olhar apenas.

Bem, voltando à Gisele Bike, acontece que um formigamento no corpo pedia umas pedaladas. No final desse tempo, voltei ao pedal. Estou até hoje. E não desejo mais sair. Nesse ínterim, disputei o Campeonato Estadual, na categoria estreantes, com gente de 18 a 50 anos. Fui o sétimo de 14 inscritos. A saúde? Puxa, sono melhor, digestão mais fácil, peso caiu 5 quilos, como eu queria. Só alegria. "Problema", só o apetite (todos) ter aumentado. E muito. E justo agora que posso comer de tudo? Quer dizer, nem tudo que amo.

Não fosse pela falta da cultura do pedal no Brasil, visto que em países da Europra como a França se vai ao trabalho de bike, eu estaria mais feliz. Mas vou pedalando, com a Kaloi... Ah, agora, em vez de 50 minutos, gasto 25 para chegar ao trabalho. E a última vez que medi o colesterol tinha caído para 170. Alguém tem dúvida de que o esporte é o melhor remédio para a saúde?