
Resolvi desobedecer ao médico e não tomar o remédio prescrito para combater e controlar o colesterol, medido no último exame em 254 hdl (Html?, rs). Ele, na verdade, não havia me dado opção, mas um ultimato: ou tomar um antídoto ou correr o risco de sofrer algo mais grave como o temido infarto. Exageradoo! Sai do consultório com a receita na mão e uma idéia persistente na cabeça: o remédio seria o meu plano B e Gisele bike meu plano A.
Antes de prosseguir, esclareço alguns pontos. A cada 12 meses, apesar de andar, correr e seguir uma dieta à base de verduras e legumes, frutas e ausência de carnes (quase vegetariano), meu colesterol subia média de 30 pontos ao ano. O vilão encontrado pelo médico do trabalho era o estresse. Este indivíduo, posso dizer com segurança, é parte integrante e permanente de qualquer redação e no dia de quem escolheu uma profissão como a minha. Ressalva feita para situar o quanto estava em apuros. O desafio permanente: "como não se estressar hoje, amanhã e no dia seguinte" só ampliava meu nível diário de estresse e, por tabela, as taxas do colesterol.
Paralelamente, martelava na minha cabeça o pensamento insistente de que eu não tinha muito tempo. Era preciso agir logo, uma vez que as veias estavam acumulando gordura do tal colesterol ruim. Enquanto isso, gisele bike permanecia literalmente esbanjando ferrugem num canto da garagem de casa.
Na loja de bicicletas de um ciclísta-atleta, competidor da categoria master A, decretei: reponha peças, dê manutenção geral e qualquer coisa necessária para ela funcionar 100% porque, a partir de amanhã, vou trabalhar com ela. Não sabia o que estava dizendo. Oito quilômetros de ida e oito de volta, estes contra o vento, na orla, não era para qualquer um. Somando 16 quilômetros para um quarentão, feito eu, sem treino, era demais. Bom, era mais do que uma questão de vida, mas qualidade de vida. A bike parecia nova, depois do trato, mas eu percebi naquele primeiro dia que era eu quem estava super enferrujado.
Na ida, menos mal. A favor do vento tudo anda. Mesmo assim, cheguei morto, após quase 60 minutos de pedal. Na volta, nem lembro, deu mais de uma hora e cheguei com a língua mais pra fora do que dogpipe cansado. (Dê um desconto porque, mesmo sem estar treinado eu andava em alta velocidade). Pedalava até a coxa doer, sem parar.
Ufa! foi o primeiro dia e eis que tudo era muito ruim! Antes, eu chegava em casa, subia e descia as escadas quantas vezes fosse necessário. Naquele dia, só fui quando chegou a hora de dormir. O resto do tempo, passei sentado, vendo televisão ou lendo. Quando subi, precisei de muito esforço para não reclamar, uma vez que a musculatura da coxa doía como se tivesse sofrido pancadas em toda a sua extensão. No dia seguinte, idem. Mas nada disso me fazia pedar lento, como eu via as pessoas fazerem na orla. Não é pra mim. Ou velocidade máxima ou nada.
E uma coisa, quando acordava e tentava me espreguiçar, a dor no músculo me fazia parar de alongar. Se minha avó fosse viva, diria, "só não desiste por vergonha". E foi o tive vontade de fazer, não pela vergonha. Mas a vontade de viver sem estar condicionado à ingestão de remédio me empurrava pra cima da bike. Detesto remédio. Não tomo nenhum. Além do senso de aranha, que me dizia no coração que essa persistência renderia uma boa experiência. Quem sabe, até um artigo para os jornais.
Ponha-se no meu lugar, pedalar todo dia até o trabalho, com uma mochila de acessórios nas costas. Vez em quando, o pneu fura, você pára em algum lugar seguro, põe cadeado na bike e toma um transporte até o trabalho. Na volta, resgata a bike e leva empurrando até em casa. De lá pra oficina e no dia seguinte, de novo. Outra hora, quebra o pé de vela, enfim. Deveria desistir. Algo me dizia que não. Mas ai vieram as quedas. Destaco três, pelas peculiaridades de cada uma delas. Uma besta, outra espetacular e a última um milagre não ter morrido.
A besta porque eu vinha devagar, quase parando, dobrei à direita praticamente na velocidade de um velocípede. Havia óleo na pista molhada da chuva e a bike derrapou pra frente, impedindo, mesmo a quem tem experiência de pedal iniciada aos 6 anos, parar a queda com o pé. O capacete neutralizou o choque da cabeça com o chão, mas a perna perto do joelho ficou em carne viva.
Parar? Imagina. Ainda tinha a espetacular, depois de passar três caras que tinham me deixado para trás 800 metros antes, com a frase de um deles: "tchau tio". Quando passei deles novamente tive o cuidado de seguir orientação dos atletas profissionais. Passar de passsagem, isto é, em velocidade, para não dar esperança. Duzentos metros depois e em boa velocidade caí na besteira de olhar pra trás. Eles estavam longe e lentos.
No entanto, quando olhei pra frente já estava na direção da mureta. Esperei o choque, pois frear nessa hora é pior. Voei uns dois metros e posei com as mãos. Pus a cabeça na grama e quase virei pra o outro lado. Parei o trânsito. Maior mico.
Meses depois, uma garota num corsa tentou dar a famosa 'roubadinha' e pegar o retorno, para não ter de dar a volta na avenida movimentada. Não me viu. A batida me lançou uns três ou quatro metros do chão. Em Frações de segundos, ainda no ar, meu pensamento era: "quando cair, tenho de me levantar rápido e correr, senão os carros vão passar por cima". Se tivesse perdido os sentidos jamais contaria os fatos. Só deu tempo de levantar e correr, enquanto os carros passavam onde eu estava.
Ainda deu tempo de pegar a bike e partir furioso pra cima da garota. Sou calmo, penso eu. É que, quando se está praticando exercícios, afirmam os especialistas, o sangue esquenta e daí para uma reação nervosa é mais fácil.
A reação daquela garota, aparentando 29 anos, me desarmou, entretanto. "Moço, quer uma 'aguinha'? Quer que eu leve você ao hospital? Você tá bem?", foram as palavras, proferidas de maneira aflita e gentil por uma moça bonita. Embora a tenha visto rapidamente. Peguei a bike, agora toda rangendo, e fui embora. Senti que era hora de parar. Afinal, já tinha feito exame e o colesterol baixado de 254 para 160. O mesmo médico tinha me dado dez na saúde. E mesmo que não, a lógica me dizia ser melhor morrer de colesterol do que no trânsito. Pelo menos, com o primeiro, seria mais lento e tinha remédio à mão. Fiquei parado três meses.
Nesse tempo resolvi falar coisas gentis para as pessoas que amo. Não importa o que pensaram. Me veio ao pensamento, o fato de que, caso tivesse morrido, teria perdido a chance de dizer-lhes algo importante. Que se bem não fizesse, certamente, mal não faria. Temi ter ido sem ter falado coisas doces às pessoas amadas. Mesmo se elas não entendessem ou me julgassem mal. Melhor assim, a ter deixado o convívio delas sem ter dito que as amo. Que delas sinto falta. Saudade quando não as tenho por perto. Quando não consigo verbalizar, digo sutilmente, com um olhar apenas.
Bem, voltando à Gisele Bike, acontece que um formigamento no corpo pedia umas pedaladas. No final desse tempo, voltei ao pedal. Estou até hoje. E não desejo mais sair. Nesse ínterim, disputei o Campeonato Estadual, na categoria estreantes, com gente de 18 a 50 anos. Fui o sétimo de 14 inscritos. A saúde? Puxa, sono melhor, digestão mais fácil, peso caiu 5 quilos, como eu queria. Só alegria. "Problema", só o apetite (todos) ter aumentado. E muito. E justo agora que posso comer de tudo? Quer dizer, nem tudo que amo.
Não fosse pela falta da cultura do pedal no Brasil, visto que em países da Europra como a França se vai ao trabalho de bike, eu estaria mais feliz. Mas vou pedalando, com a Kaloi... Ah, agora, em vez de 50 minutos, gasto 25 para chegar ao trabalho. E a última vez que medi o colesterol tinha caído para 170. Alguém tem dúvida de que o esporte é o melhor remédio para a saúde?


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